Dor no câncer

O paciente não precisa conviver com a dor.
Avaliação e medicações adequadas oferecem melhor qualidade de vida ao paciente.

A dor é um sintoma que pode ocorrer com os pacientes diagnosticados com câncer e provavelmente o mais temido por eles. A maioria das dores em pacientes oncológicos pode ser diretamente relacionada ao tumor (92,5% dos casos), indiretamente relacionada ao tumor (2,3%) e relacionada ao tratamento, sobretudo a quimioterapia e a radioterapia (20,8%).

Cerca de 30% dos pacientes estão com dor ao realizar o diagnóstico de câncer e 65% a 85% sentem dor quando a doença está avançada. A boa noticia é que a dor decorrente do câncer pode ser efetivamente tratada em 85% a 95% dos pacientes por meio de um programa integrado de tratamento sistêmico, medicamentoso e com drogas antineoplásicas (quimioterapia).

Tratamento do câncer sem dor

A dor não é parte necessária e nem automática na evolução dos pacientes com câncer, ou seja, não se pode afirmar que, pelo fato do paciente ter um câncer ele obrigatoriamente terá dor.

Para falar em tratamento do câncer sem dor, é importante destacar sua definição. Câncer é uma doença que apresenta crescimento desordenado de novas células podendo invadir áreas – tecido ou órgão – vizinhas e também crescer em locais distantes da origem, que seriam as chamadas metástases. Por isso a importância do diagnóstico e do tratamento precoces, pois é possível tratar um câncer e até mesmo atingir sua cura sem sentir dor alguma.

No entanto a incidência de dor em alguma fase do tratamento é possível, mas, graças às pesquisas e aos avanços científicos, os pacientes oncológicos podem atualmente viver livre de dores incapacitantes, com preservação de uma qualidade de vida adequada e digna.

Os medicamentos para a dor

A dor é classificada de acordo com a localização; características da dor, por exemplo: se queima se lateja, se aperta, se é em cólica; se é continua ou em episódios com intervalos de tempo; e principalmente a intensidade desta dor. Após essa avaliação minuciosa é que definimos quais analgésicos serão prescritos. Esses analgésicos são normalmente os mesmos utilizados no tratamento de dores não oncológicas, destacando os comuns como: dipirona, paracetamol, anti-inflamatórios, antidepressivos – não só pelo efeito emocional e melhora do sono mas também pelo efeito analgésico – e finalmente os analgésicos opióides: codeína, tramadol, oxicodona, metadona e a mais conhecida que é a morfina.

A morfina carrega um estigma muito grande ainda nos dias de hoje, pois é comum os pacientes acreditarem que “se vai tomar morfina, é porque está com doença grave e avançada”. Este pensamento se deve ao fato de que, no passado, a morfina era utilizada somente em casos extremos de muita dor, como último recurso. Então se associou que a morfina era uma droga extremamente perigosa e, portanto ficava restrito seu uso para vítimas de guerra ou doentes terminais.

Felizmente nos dias atuais, a morfina é utilizada para qualquer dor de forte intensidade, como em cirurgias benignas como cesáreas, fraturas ósseas, hérnias de disco vertebral, e não somente em quem tem câncer.

Eliminar a dor melhora a evolução do tratamento no câncer.

Para entender o tratamento da dor em câncer, temos que ter em mente o conceito de dor total, ou seja, ela é composta por quatro fatores: 1- aspectos somáticos (que é a dor relacionada ao tumor local ou metástases, ao tratamento como lesões de nervos causadas por quimioterapia ou radioterapia), 2- aspectos psicológicos (como ansiedade, medo, depressão, sentimentos de culpa/castigo), 3-aspectos espirituais (resignação por algum erro do passado, morte, liberdade) e 4- aspectos sociais (relacionamentos familiares, sexualidade, medo de dependência de alguns medicamentos, amizades, perdas financeiras).

Quando não se trata adequadamente a dor oncológica, levando em consideração todos estes aspectos, isso pode comprometer o tratamento do câncer propriamente dito, pois o paciente não se alimenta corretamente, não tem um sono noturno que seja reparador e que leve ao descanso, motivo de grande sofrimento emocional para o paciente e seus familiares. Tudo isso pode resultar em um grave comprometimento clínico destes pacientes, o que comprometeria muito a evolução e o sucesso do tratamento de uma patologia oncológica.

“A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” Portanto, é obrigatório que todo profissional de saúde trate ou encaminhe para tratamento especializado qualquer quadro doloroso oncológico ou não. Porque o paciente não precisa conviver com a dor.

Adriane Gori – Anestesiologia e Tratamento clínico da Dor/Graduação e Residência medica em Anestesiologia pela Universidade Estadual Paulista/ Unesp-Botucatu • Alivian | Centro de tratamento e prevenção da dor – Granja Viana em Cotia/SP